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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 107 - Montreal, 1 de Dezembro de 2004

 
Babylone  
Tenho vergonha
Por Carlos de Jesus

Tenho vergonha de o dizer, mas digo-o. Nunca tinha visto nenhum trabalho da Paula de Vasconcelos. Não porque é portuguesa. Mas o facto de o ser agrava mais o meu embaraço. É uma Artista, com «A» maiúsculo, ponto final. Artista e filósofa. Filósofa e humanista. Humanista e percursora. Percursora e universalista. Adorei o espectáculo «Babylone». Chamo-lhe espectáculo, porque não tenho melhor termo no meu parco vocabulário artístico. É um espectáculo entre a dança e o teatro, entre as artes do circo e o show musical, entre o recital e a poesia. Um espectáculo a várias dimensões que nos leva a três cantos do mundo. O quarto, a África, voluntária ou involuntariamente, estava ausente.

Quando no final do espectáculo nos encontrámos com Paula de Vasconcelos, infelizmente a ocasião foi pouco propícia para uma troca de impressões mais demorada. Ao que Paula de Vasconcelos nos disse, a ausência da África não se deve senão ao facto de haver falta de artistas africanos disponíveis em Montreal. Portanto, esta ausência, segundo a autora, não foi voluntária. Mas eu penso que sim. Que devia ser voluntária. Porque a África, por quem tenho pessoalmente uma relação especial, devia ser retirada da peça. Para dar mais significado ao estranho mundo em que vivemos. Para que, pela sua ausência, se chamasse a atenção para o continente ignorado, para não dizer o continente rejeitado e pelo qual, como portugueses, mais cedo ou mais tarde, teremos de dar contas.

Babilónia, a cidade simbólica onde nasceram todas as civilizações do mundo, está bem representada nesta peça. Da China à Europa, da Índia ao Brasil, gente de toda a parte e condição social lá está representada. De Adão e Eva originais e sensuais, aos globe-trotters do jet set de hoje, passando pela indiana resignada, a chinesa moderna, a nórdica frígida ou a brasileira irreverente, entre muitos outros personagens que se entrecruzam, se amam, se disputam ou se ignoram, ao som de tambores, guitarras e violinos, com ritmos que ora nos soam orientais ora célticos, como espectador faltavam-me olhos e ouvidos para tudo ver e entender. Mesmo alguns galináceos vieram dar um ar surrealista à cena.

Naturalmente que não se trata da Babilónia de hoje, melhor e mais tristemente conhecida por Bagdade. Mas a escolha do nome não deve ter sido fortuita, especialmente se atentarmos que a obra deve ter sido concebida quando a invasão do Iraque começava a tomar forma. Como dissemos o tempo foi escassíssimo para desenvolver esta hipótese com Paula de Vasconcelos e, mais uma vez, lamento imensamente de me ter privado até agora do trabalho excepcional desta grande artista. Obrigado Paula. Aguardo ansiosamente de me poder resgatar.