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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 107 - Montreal, 1 de Dezembro de 2004

 
O maçon mais antigo do Mundo  
Morreu Fernando Valle  
LusoPresse  
Valle foi uma referência ética para todo o País, fundador do PS, que nunca aceitou cargos de relevância, a não ser o de governador civil de Coimbra

Como seria dito em linguagem maçónica, Fernando Valle passou na sexta-feira, ao meio-dia, em Coimbra, ao Oriente Eterno, com 104 anos de idade. Era o pedreiro livre mais antigo do mundo. A sua iniciação como maçon teve lugar em Março de 1923 em Coimbra, no Rito Francês na Loja Revolta, quando a Primeira República começava já a declinar.

«O presidente honorário do PS, Fernando Valle, “teve uma morte serena” enquanto dormia na sua casa, em Coimbra», declarou o presidente da Câmara de Arganil citado pelo jornal «Expresso».

Como médico estava mais próximo dos pobres do que de qualquer poder. Já em 1981, em entrevista ao Diário de Lisboa, dizia: «Eu fui sempre um homem de esperanças profundas. Se isso é ser romântico, eu sou romântico. Lutei sempre com humildade e com a convicção de não estar a fazer nada de importante».

No passado mês de Julho, o jornalista Fernando Madail, publicou a biografai de Fernando Valle, «Um Aristocrata de Esquerda» que, mais do que uma biografia, é um fresco da oposição e da vida cultural de Coimbra e das Beiras nos últimos 80 anos. O livro é prefaciado por Mário Soares e é uma leitura obrigatória para se compreender a Oposição não Comunista ao regime de Salazar.

Fernando Valle tem origens numa família de grandes tradições liberais. Já o seu pai era republicano e médico, um João de semana, como ele mais tarde foi. Nasceu na Cerdeira (Coja), no concelho de Arganil, a 30 de Julho de 1900. Na sua terra exerceu a actividade clínica desde 1926, após concluir a licenciatura em Coimbra. Foi médico municipal e delegado de saúde, funções de que foi demitido por Salazar.

Graciosamente continuou a tratar os pobres, na misericórdia e em clínica liberal, durante 50 anos. Galardoado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial) e Ordem de Mérito (Grã-Cruz), Fernando Valle, ainda enquanto estudante de Medicina na Universidade de Coimbra, participou nas lutas reivindicativas e progressistas da Academia.

Integrou as comissões de candidatura à Presidência da candidatura de Norton de Matos, Quintão de Meireles e de Humberto Delgado.

Em 1962, foi candidato a deputado por Coimbra pela Oposição Democrática. Pertenceu à Frente Patriótica de Coimbra, embora sem ser comunista, e uma cilada montada por um colega do grupo levou-o à prisão do Aljube durante três ou quatro meses.

Foi também militante e dirigente do MUD, Aliança Republicana e Socialista e Acção Socialista. As actividades oposicionistas ao regime ditaram a sua detenção pela PIDE e obrigaram-no a julgamentos, em diversos momentos.

Fez parte das 27 figuras que, em 1973, fundaram na Alemanha o Partido Socialista, estrutura que, sob a liderança do seu amigo Mário Soares, pretendia derrubar o regime ditatorial instaurado em Portugal desde 1926 e construir uma sociedade mais fraterna.

Depois do 25 de Abril foi o primeiro governador civil de Coimbra, «obrigado de certa maneira por Mário Soares», um cargo que desempenhou entre 1976 e 1980. Logo após a «Revolução dos Cravos» foi presidente da comissão administrativa da Câmara Municipal de Arganil.

A autarquia que o viu nascer, e onde desenvolveu grande parte da sua actividade profissional e cívica, galardoou-o com a Medalha de Ouro do Concelho de Arganil.

Amigo, desde a década de trinta, de Miguel Torga – pseudónimo do também médico Adolfo Rocha – durante o seu percurso estudantil na Universidade de Coimbra foi membro da direcção do jornal académico «Humanidade», presidida pelo escritor Vitorino Nemésio.

A Ordem dos Médicos, no final dos anos 90, criou o Prémio Dr. Fernando Valle, destinado a distinguir o trabalho dos clínicos gerais, um galardão que particularmente o sensibilizou, por o ver como uma homenagem à forma como desenvolveu a actividade em benefícios dos desprotegidos. A Ordem dos Médicos (a cuja comissão Regional do Centro presidiu, entre 1975 e 1989) distinguiu-o também com a Medalha de Ouro do Cinquentenário.

Em Arganil exerceu também o cargo de director clínico do Hospital Condessa das Canas. Neste concelho fundou o posto médico de Assistência Folques, onde os cuidados prestados foram sempre gratuitos. Da sua actividade cívica e associativa destaca-se também a fundação da Sociedade Recreativa Argus, de que resultou mais tarde a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Argus, juntando todas as associações existentes em Arganil. Após a morte de Tito de Morais, em Dezembro de 1999, foi escolhido para novo presidente honorário do Partido Socialista. Fernando Valle afirmou na ocasião que a distinção não o entusiasmava.

Ao longo da sua vida sempre recusou certas funções políticas por sentido de responsabilidade e por ver a política numa perspectiva romântica e ideal.

Contudo, esteve sempre atento ao que se passava no país e no seu partido, porque se considerava «um democrata, de maneira profunda, muito ligado ao povo».

Nas últimas eleições para secretário-geral do PS foi o primeiro subscritor da candidatura do seu amigo Manuel Alegre.