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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 107 - Montreal, 1 de Dezembro de 2004

 
Rescaldo das eleições  
Limpando as feridas  
Por Manuel CALADO  
Depois do descalabro da eleição, os democratas americanos estão-se interrogando e formulando planos para a próxima arrancada. Quais os elementos que mais influíram na derrota? Porque motivo a maioria dos americanos não acreditou na sua mensagem? Os estrategas políticos dão balanço à situação e delineiam novos planos de ataque.

Está provado que os chamados “valores morais” ajudaram a derrota democrática. Bush e a sua gente souberam pintar a esquerda democrática com laivos do “evil empire”, ou império do mal. Os pastores evangélicos que dominam as tendências político-religiosas das gentes sulanas, souberam tirar partido da situação e apresentar os democratas como gente ímpia e inimiga dos valores tradicionais. Mas a verdade é que os católicos nortenhos não são ímpios nem imorais, embora se recusem a aceitar sem contestação todos os éditos de Roma. Mais de setenta por cento dos católicos americanos não se opõem ao controlo da natalidade e, no aborto, embora não defendam tão difícil opção, preferem a escolha livre da mulher à intervenção forçada do governo. É que o assunto, por ser de cariz moral, é do foro íntimo e da consciência dos responsáveis. Esta posição, aceitável à maioria dos católicos, é anátema para os cristãos sulanos.
É verdade que os católicos nortenhos não aceitam a cem por cento a doutrina da sua igreja. Mas isso não os impede de serem pessoas com fundo moral, que acreditam na justiça social e têm estado na dianteira da luta contra o racismo que ainda predomina em certas zonas do país. Foi no sul onde epilogou a luta contra a escravatura e a crassa violação dos direitos humanos e cívicos dos negros. E os conservadores sulanos nunca perdoaram aos liberais do norte essa incursão humano-social na sua coutada política e religiosa.
Mas, em face da realidade política, os estrategas democráticos procuram ajustar-se à situação e modificar um pouco a sua mensagem. “A nossa plataforma e as bases do partido Democrata são pró-escolha” – disse a propósito Elizabeth Cavendish, presidente de uma organização feminina. “Mas o partido precisa de uma imagem mais religiosa” – afirmou. E isto denota a força que a religião está tendo na política americana. Os democratas não defendem o aborto em si. O aborto, dizia o presidente Clinton, deve ser raro e seguro. Numa nação democrática e livre, empenhada em “vender” liberdade às mulheres do Iraque e do Afeganistão, tudo está em saber se a mulher deve ser suficientemente livre para escolher o seu próprio destino, segundo os valores da sua consciência, ou se deve submeter os seus órgãos reprodutores à fiscalização burocrática e impessoal do governo.
Mas, gizar uma mensagem que diga isto em termos convincentes aos americanos não é fácil e o próximo mensageiro deve possuir o carisma necessário para os convencer de que a nação, não deve curar apenas dos problemas religiosos. Os governantes numa nação democrática não devem ser escolhidos na base da religião que professam. A crença de cada um é do foro íntimo das pessoas, e isso deve ser deixado às igrejas e às suas próprias rivalidades e diferenças teológicas e doutrinárias. Apesar do seu cunho moralizador, as religiões têm dado origem a lutas selváticas e sanguinárias em nome de Deus. A história está cheia de exemplos desde as cruzadas à Inquisição, à luta entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, e à onda de terrorismo que nos consome, em que estão em jogo os princípios morais e políticos de cristãos e muçulmanos.
Não há dúvida que, no espectro político-religioso americano, os católicos se situam à esquerda do centro e os cristãos bíblicos à direita. Os católicos são liberais e os evangélicos conservadores. E Cristo, foi liberal ou conservador? No Sul, o pregador da Galileia é apresentado como republicano. Mas estão enganados. Medido pela bitola do nosso tempo, Ele era um progressista da esquerda radical. O político que hoje ousasse fazer a afirmação que Ele fez, de ser mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus, ninguém lhe ligava importância. Diziam que era um maluco sonhador. Mas há uns anos atrás, iria parar ao calaboiço como comunista. Portanto, ele seria tudo, menos conservador. E foi precisamente essa veia poético-esquerdista, que o levou à cruz. As sociedades não aceitam gente avançada que venha contradizer o estabelecido. O status quo.
E é tudo por hoje.