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Volume VIII - Nº 107 - Montreal, 1 de Dezembro de 2004

 
Autores da Lusofonia
Alves Redol
Por Vitória FARIA
António Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira a 29 de Dezembro de 1911 e aí frequentou o Curso Comercial que acabou em 1927. Como o pai era um modesto comerciante não pode prosseguir os estudos e foi obrigado a começar a trabalhar. Com 16 anos emigrou para Luanda onde viveu três anos trabalhando como operário. Se a sua estadia angolana foi pouco feliz aí colheu experiência para a sua obra futura. No regresso a Portugal em 1936 iniciou a actividade literária começando a colaborar no jornal O Diabo, onde escreveu crónicas e contos ribatejanos. Foi por essa altura também que aderiu ao movimento que se opunha ao Estado Novo, tornando-se militante do Partido Comunista Português. Dedicou-se definitivamente à ficção e tornou-se um dos iniciadores, e pouco depois um dos grandes expoentes do neo-realismo português. Em 1939 publicou o primeiro romance Gaibéus, seguindo-se dois anos mais tarde Marés e Avieiros em 1943. No primeiro romance descreve a vida dos trabalhadores sazonais que vêm da Beira e do Alto Alentejo para a colheita do arroz nas lezírias ribatejanas, dando-nos uma imagem da sua luta e do seu sofrimento. Foi este o primeiro romance duma nova tendência socialista que se propunha utilizar a ficção para denunciar as injustiças sociais. Alves Redol tocou outros géneros além do conto e do romance, escrevendo teatro, estudos etnográficos e mesmo um cancioneiro do Ribatejo, em 1950. A sua obra é vasta e nem toda da mesma qualidade literária, mas alguns dos seus escritos são verdadeiras obras-primas. A Barca dos Sete Lemes (1958), Uma Fenda na Muralha (1959) e Barranco de Cegos (1962) são uma trilogia onde a intervenção política e social passou a segundo plano para se centrar sobre a evolução psicológica das personagens. Outros títulos muito conhecidos: Nasci com passaporte de turista, Vindima de sangue, Olhos de Água. As peças de teatro mais conhecidas são: Forja e O Destino morreu de Repente. Ambas foram objecto de censura nas tentativas para as levar à cena. Alves Redol faleceu em Lisboa a 29 de Novembro de 1969. Postumamente foi publicado o volume de teatro Os Reisnegros em 1974.

Extracto de Avieiros
Pela vala da Costa Branca, a reponta da maré não corria de feição. O homem meteu o barco junto à margem de uma das ínsuas e lá foi remando sem esforço, embora as pontas dos ramos dos salgueiros lhe verdascassem a cara. No silêncio da vala, o saveiro deslizava em círculos de água mansa.
O olhar fatigado do homem andava entre a carreira do rumo que traçara e o banco da ré onde a companheira pousara a cabeça. Junto dela, ansioso entre ambos, o filho interrogava os gemidos contidos da mãe.
- Vais melhor? – perguntou o homem.
Ela respondeu num cerrar de olhos. Queria falar, dizer qualquer coisa, mas a boca seca esganava-lhe as palavras. Estendeu depois a mão para os cabelos do filho e passou-lhe com os dedos, devagar, devagarinho, como se a carícia lhe abrandasse as dores do ventre. Mimalho, o rapaz, aproximou-se mais até lhe tocar com o ombro.
- Deixa a mãe, Zé!
O garoto escolheu-se, furtando um olhar sombrio para o pai. Pressentia para breve o fim dos mimos que ambos lhe davam nas folgas da pesca. Já ouvira dizer que qualquer dia chegava um menino (para quê um irmão?...); e lembrava-se, pesaroso, dos meninos pequenos das outras mulheres, para quem iam beijos, sape-sapes e cantigas de adormecer.
Amuado por tão ruins lembranças, afastou a cabeça dos dedos da mãe. Começava a compreender porque resmungavam os do seu tamanho quando os mandavam embalar os irmãos. Receber sobras dói sempre – parece esmola; e esmola, mesmo farta, sabe a coisa podre, assim ouvira dizer ao Tó Mirão num dia de bebedeira.