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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 106 - Montreal, 15 de Novembro de 2004

 
Editorial  
Por Carlos de Jesus  
A actualidade das últimas semanas tem sido rica em acontecimentos de repercussão mundial. A vitória de Bush, a morte interminável de Yasser Arafat, a guerra civil no Darfour, a caça ao branco na Costa do Marfim... A lista está longe de ser exaustiva já que nem sequer tivemos tempo de prestar atenção ao que se passa no Iraque, no Irão, ou na Coreia do Norte, entre outros.

Bush, estávamos enganados

Em relação às eleições nos Estados Unidos, ao que parece toda a gente se enganou. As últimas sondagens, corroboradas por repórteres dignos de crédito, vieram confirmar que a vitória eleitoral de Jorge W. Bush não se deve somente ao medo que os americanos têm de novos acto terroristas mas dum real deslize da opinião pública para a direita conservadora. Os eleitores acabaram por eleger Jorge W. Bush não só para manter em liça o Comandante Supremo dos Exércitos, em tempo de guerra, mas também porque receavam que John Kerry viesse a autorizar o aborto, o casamento entre homossexuais, o controlo das armas de fogo, a nacionalização da saúde e o aumento das despesas sociais.

Isto é tanto mais inquietante quanto sabemos que é nesta linha de pensamento conservadora que se inscreve a atitude da América face ao resto do mundo, a do «orgulhosamente sós», para parafrasear Salazar. Se os prognósticos mais pessimistas se concretizarem, a administração americana vai continuar a ignorar ou a violar os acordos internacionais, sejam eles sobre a protecção climática, Acordo de Quioto, o Tribunal Internacional Penal, ou o acordo sobre a proliferação nuclear (AMB) e a beneficiar os tratados que lhes interessam como o da Organização Internacional do Comércio, o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional. Isto é resolutamente voltados para os seus interesses imediatos, com total desprezo pelos mais deserdados da terra.

Arafat, que futuro?

Na quarta-feira à noite, hora de Montreal, a notícia deu a volta ao Mundo. Yasser Arafat passou à história. Para os palestinos Arafat não foi o homem que lhes deu a terra prometida, como Ben Gourion a deu aos judeus. Mas foi, no entanto, o homem que lhes deu uma identidade nacional.
Derrotados em 1948, eliminados do mapa-mundo, condenados ao exílio, os palestinos estavam resignados a viver como apátridas em terras hostis. Hoje, embora lhes falte a estrutura política dum estado independente, já dispõem duma terra, duma bandeira e, em breve, assim o esperamos, dum país autónomo que aprenderá a viver lado a lado com os Israelitas, como os europeus aprenderam a viver entre eles depois de duas guerras mundiais.
Mas se Arafat é visto pela grande maioria dos seus compatriotas como um herói, também é a ele que se deve o malogro do estado palestino e a miséria em que vive o seu povo. Miséria económica, mas sobretudo miséria moral quando as mulheres encorajam os filhos a tornarem-se terroristas suicidas.

Combativo, obstinado, cruel para com o adversário, Yasser Arafat foi um político mais interessado pelo seu poder pessoal do que pelo bem do seu povo. A sua fortuna pessoal é uma das maiores de toda a região e embora não a utilizasse para o seu conforto pessoal, utilizou-a para comprar alianças, destruir adversários e manter a família no luxo. A mulher
vivia em Paris com uma mesada de 100 mil dólares por mês!

A história de Arafat e da Palestina de hoje estão intimamente ligadas, não tanto pelos laços do sangue mas mais pela inconsistência da sua trajectória.

Durante a última Grande Guerra e sob o domínio britânico, o povo palestino tinha por chefe político e religioso Amin-Hussein, mufti de Jerusalém. Homem ambicioso e sem escrúpulos Amin-Hussein tinha conseguido eliminar os rivais e dividido o povo para melhor se amparar do poder. Sem a solidariedade dos seus não foi capaz de evitar a grande catástrofe de 1948, a Nakba, ou seja deportação massiva de palestinos pela criação do estado de Israel.

Refugiado em Beirute, Amin-Hussein morreu no silêncio e no opróbrio, depois de ter aniquilado toda a esperança de um pátria para a Palestina, ao se aliar com Hitler contra os judeus.

Arafat sempre pretendeu que ele não havia de ser outro Amin-Hussein. Mas na realidade foi também um manipulador, o rei dos disfarces, o homem de todas as contradições. De terrorista a Prémio Nobel da Paz, Arafat foi tudo menos diplomata e muito menos visionário político.

Nascido no Egipto em 1929, apesar de sempre ter pretendido ser natural de Jerusalém, Arafat, a quando da morte da mãe, aos quatro anos, foi viver com um tio materno, em Jerusalém. Voltou ao Egipto, para junto do seu pai, um pequeno comerciante, para estudar na Universidade do Cairo. Nessa altura militou junto do movimento islamista Os Irmãos Muçulmanos que promovia guerra santa contra Israel.

Com um diploma de engenheiro, Arafat foi trabalhar para o Kuwait e é lá que cria o Movimento de Libertação da Palestina, um movimento de guerrilha à semelhança dos movimentos de libertação das antigas colónias.

Este é um dos primeiros erros do homem que, ao contrário dum Nelson Mandela que teve a inteligência de compreender que só a acção política podia levar à libertação do seu povo, Arafat não compreendeu que o adversário, tal como os brancos da Africa do Sul, não tinha outra pátria para os acolher e que mais cedo ou mais tarde tinha de aprender a viver com eles.

Arafat, sempre na clandestinidade, ora como homem de negócios ora como miliciano libanês consegue construir uma sólida organização politica e militar em Beirute, a O.L.P. Inc. graças ao apoio dos países do Golfo, com jornais, escolas, hospitais e oficinas. O sucesso económico e militar começa a inquietar Israel e em 1982, o exército israelita resolve atacar sob o comando de Ariel Sharon. A O.L.P. é desmantelada mas Arafat consegue fugir para a Tunísia.

Em 1987, em consequência dum simples acidente da estrada no qual são mortos três operários palestinos por um camião israelita, o boato corre que o acidente não foi voluntariamente provocado. Começa assim a primeira guerra das pedras, a Intifada. Os militantes gritam OLP, OLP. Arafat é o primeiro a surpreender-se da popularidade do seu movimento. O que levou também Israel a considerá-lo como um interlocutor incontornável para levar a bom termos as negociações de paz. Ei-lo de volta à mesa das negociações. De chefe terroristas passa a Presidente da Autoridade Nacional da Palestina. Enquanto os dirigentes políticos israelitas se sucedem uns aos outros, ao sabor de eleições e atentados, Yasser Arafat continua à frente da Palestina, usando de influencias e sobretudo da corrupção. Obstinado até ao fim, resistindo até ao coma, foi ele quem mais contribui para o estado actual do médio oriente. Sobretudo depois de ter apoiado publicamente, ao contrário de todos os outros dirigentes árabes, a invasão do Kuwait pelas tropas de Sadam.

A História vai ser severa em relação a Yasser Arafat.